Travel: a lifetime microadventure – Viajar: uma microaventura para a vida

(Please scroll for english version)

Júlio Verne escreveu a Volta ao Mundo em Oitenta Dias, e Phileas Fogg tornou-se um herói por ter sido o mais rápido a fazer esse percurso. Ele não ia em busca de aventura e não acreditava em imprevistos. Queria apenas provar que era possível, fazendo o percurso estabelecido e regressando a Londres no tempo planeado. Mas uma viagem não é assim. Os imprevistos são inevitáveis e a aventura é uma consequência certa.

Assim como a paisagem muda à medida que se percorrem quilómetros geográficos, esses refletem-se em quilómetros interiores, durante os quais nós nos transformamos, nos adaptamos, nos adequamos às situações novas que vão surgindo. E ao regressarmos nunca somos os mesmos de quando partimos. Essa transformação é como uma metamorfose acelerada da evolução natural que teríamos ao longo da nossa vida, com o passar do tempo. Como se os quilómetros geográficos passassem por nós em forma de anos virtuais, trazendo-nos uma experiência concentrada à velocidade acelerada de uma viagem.

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Morocco, Dades Gorge

Por isso viajar não é apenas uma moda, uma excentricidade, um percorrer vazio de quilómetros, ou uns dias de repouso, em que entramos em modo de pausa. Viajar é uma exploração de possibilidades infinitas que nos abre a mente e nos torna mais plásticos. É um treino para a vida, como uma formação intensiva na qual desenvolvemos capacidades e competências que nos ajudam a ser melhores, tanto a nível pessoal como profissional.

Vejamos alguns exemplos:

  • Capacidade de comunicação

Comunicar com diferentes interlocutores, nos mais variados contextos, possivelmente sem ser na nossa língua materna. Quando viajamos a nossa sobrevivência depende literalmente desta capacidade, desde algo básico como encomendar uma refeição, a algo mais elaborado como pedir indicações para ir a um local específico (e compreender a resposta!).

  • Resolução rápida de problemas diversos

Quando se viaja só há uma certeza: nunca nada corre exatamente como planeado (e ainda assim é essencial planear, que mais não seja para termos noção do desvio!).  Numa viagem à Nova Zelândia chegámos ao fim do dia a Dunedin, onde tínhamos planeado passar a noite, depois de assistir ao espetáculo que é a chegada dos pinguins à praia. O que não estava planeado era que nesse fim-de-semana houvessem 5 eventos distintos na pequena cidade, desde um campeonato de dança a um congresso, e mais outros três que já não tenho em memória. O que é certo é que estes eventos atraíram um volume anormalmente grande de pessoas que encheram TODOS os hotéis da cidade. Já era noite, não tínhamos onde dormir e foi necessário rapidamente resolver o problema. Acabámos por travar conhecimento com uma simpática senhora da receção de um dos hotéis cheios, que nos indicou uns amigos que tinham uma espécie de B&B, onde ainda havia um quarto disponível. Depois de conseguirmos localizar a dita casa, utilizando apenas um daqueles mapas simplificados que os hotéis têm para indicar aos turistas os principais pontos de interesse, foi aí que finalmente passámos a noite. No final foi uma ótima experiência, e aprendemos que se queremos pernoitar numa cidade pequena durante o fim-de-semana, e não temos hotel reservado, convém pelo menos chegar cedo.

  • Tolerância e respeito:

Quando viajamos são incontáveis as diferenças que encontramos em tudo: nas pessoas, nos hábitos culturais, e mesmo em aspetos básicos do dia-a-dia como a comida, as regras de trânsito, os horários. Nessas situações a minoria somos nós, e temos que aceitar e respeitar as regras e hábitos locais. O interessante é que muitas vezes acabamos por concluir que até fazem bastante sentido, e em alguns casos acabamos até por mudar os nossos hábitos mesmo depois de regressar a casa.

  • Estar fora da zona de conforto:

Com tantas coisas diferentes e imprevistas, estar fora da zona e conforto torna-se o normal. Quando viajamos aceitamos isso melhor do que quando estamos em casa; e essa capacidade de adaptação ao novo e inesperado não se perde, regressa connosco de forma inconsciente e vamos sentir-nos melhor preparados para aceitar a mudança de forma natural.

  • Improvisação:

Fazer uma fogueira sem fósforos, comer um iogurte sem colher, tomar duche sem chuveiro, secar roupa da noite para o dia sem secador. Em viagem tarefas como estas podem ser necessárias a qualquer momento, e acabamos por desenvolver a capacidade de arranjar forma de as realizar, improvisando soluções criativas.

  • Paciência:

Uma escala de 5 horas num aeroporto que fica a mais de 1 hora da cidade, num Domingo de Páscoa. Ok, não vale a pena ir até à cidade porque os transportes são limitados, vamos demorar demasiado tempo e vai estar tudo fechado. Mas fiquemos de acordo que a espera de 5 horas vai ser um bom exercício de paciência.

  • Controlo orçamental:

Este ponto ficou para o fim, mas é sem dúvida fundamental. Quando se viaja há despesas diárias que não temos em casa e que não podemos evitar. Quer estejamos a falar de um orçamento curto ou folgado, quanto mais longo for o período da viagem, mais importante é controlá-lo. Isto porque, como vimos no início, vai haver imprevistos, e no mínimo temos que ter noção se os mesmos são comportáveis no nosso orçamento ou se é necessário arranjar forma de os compensar. Este é mais um excelente exercício que continuará a ser útil na nossa vida do dia-a-dia depois de regressarmos a casa.

Esta reflexão leva-me a concluir que viajar pode ser uma microaventura ou uma aventura em grande escala, mas é certamente uma experiência que quem gosta deve explorar ao máximo, porque os benefícios vão muito para além da viagem em si.

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New Zealand, Wai-O-Tapu

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Travel: a lifetime microadventure

Jules Verne wrote Around the World in Eighty Days, and Phileas Fogg became a hero for being the fastest man to make it. He was not looking for adventure and he didn’t believe in the unexpected. He just wanted to prove that it was possible, by traveling the established route and returning to London on the planned date. But traveling isn’t like that. The unexpected is inevitable and adventure is a consequence.

Just like the landscape changes as we travel geographic miles, it reflects in interior miles within ourselves, during which we also change and adapt to the new situations before us. And upon our return we are never the same as we departed. That transformation is like an accelerated metamorphosis of the natural evolution that we would suffer during our lives, as time went by. As if the miles we travel passed by us in the form of virtual years, bringing a concentrated amount of experience at the fast pace of a trip.

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China, Xi’an

That’s why traveling is not just a whimsical trend, a lust to wander by itself, or some days of break in which we are on pause mode. Traveling is in fact an opportunity to explore endless possibilities that open our minds and makes them more plastic. It’s a lifetime practice; like an intensive training in which we develop skills and capabilities that will help us to be better, both in our personal and professional lives.

Let’s check out some examples:

  • Communication skills:

Communicate with different people, in various contexts, possibly not in our mother tongue. When we travel our survival depends literally on this skill. From something as basic as ordering a meal, to anything more complex as asking for directions to a specific spot (and actually understanding the answer!)

  • Quick problem solving skills:

When we travel there is only one thing to be sue of: Nothing ever goes exactly as planned (even though it’s important to plan, even if it’s just to access how far we fell from it). In our last trip to New Zealand we arrived in Dunedin in the late afternoon, where we had planned to stay for the night, after attending the show of the arrival of penguins to the beach. What was not in our plan was the fact that 5 events were taking place that very weekend in the small town: a dancing competition, some kind of seminar and thee others. All those events attracted an abnormally high number of visitors to the town, which led to ALL the hotels being full. The night was falling, we had no place to stay, and it was necessary to come up with a solution. Eventually we met a nice lady from the reception of one of the hotels, who introduced us to a friend, who had a sort of B&B which still had one vacant room. After we were able to locate the said B&B, using one of the small maps the hotel had to point the town’s hotspots to tourists, we finally spent the night there. In the end it was a comfortable night and a great experience; and we learned that if we want to spend the night in a small town during a weekend, and we have no booking, then we should at least arrive early.

  • Tolerance and respect:

When we travel there are countless differences from what we are used to in everything: people, cultural habits and even in small everyday things like food, traffic rules, schedules. In those situations we are the minority, and we must abide to the local rules and habits. The interesting fact is that we often end up concluding that they actually make sense. And in some cases we even adopt some of them to keep, even when we return home.

  • To be out of our comfort zone:

With so many different and unexpected stuff going on, to be out of our comfort zone becomes the normal status. When we are traveling we tend to accept it better than when we are at home; and that willingness to embrace the new and the unexpected remains with us, even without us noticing, and will make us feel more prepared to be out of our comfort zone in future situations of our life at home.

  • Improvising:

How to make a fire without matches? How to eat a yoghurt without a spoon? How to take a shower without a shower stall? How to dry cloths overnight without a dryer? When we travel all these tasks may become necessary at some point, and we end up developing the ability to find creative solutions to sort them out.

  • Patience:

A 5 hours layover in an airport that is more than 1hour distant to the town, on an Easter Sunday. Ok, it’s not worth to go to the town because the transports will be limited, it’ll take too long and everything will be closed. But let’s agree that the 5 hours wait is going to be a good patience exercise.

  • Budget Control:

This is the last, but by no means the least important point. When we travel there are daily expenses that we don’t have at home and cannot be avoided. Whether it’s a tight budget or a big one, the longer the trip, the more important it becomes to maintain a careful budget control. This is because, as we saw in the beginning, there are going to be unforeseen situations and costs, and the least we can do is to keep track on them to access whether our budget can support them or if compensation will have to be made. This is a great exercise that will come on handy on our everyday lives at home.

This reflection leads me to conclude that traveling can be a microadventure or a major adventure, but it certainly is an experience that those who love it must pursue as much as possible, for its benefits go far beyond the trip in itself.

Tasmania, Cradle Mountain and Lake St Clair
Tasmania, Cradle Mountain and Lake St Clair

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